sábado, 15 de outubro de 2011

O Buraco do espelho

Letra de Arnaldo Antunes



o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora




domingo, 28 de agosto de 2011



"Dá-me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é a linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio".

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Engraçado... sempre escutei o clichê de que quem lê viaja. Eu não sabia que quem viaja volta um pouco pra casa. É como se cada pedacinho do que se vê fosse procurando um lugar familiar pra ocupar na sua memória. A gente pode ficar até meio confuso, sem saber ao certo se está mesmo só conhecendo um monte de coisas novas, chega a parecer que se volta em várias páginas e se continua a escrever, com sentidos novos, é certo. É um pouco como se a gente tivesse encontrado mais um pedacinho da história, um que a gente nem sabia que faltava...
A foto é do Musée Rodin, que conheci agora em agosto. E o texto é de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, que li há algum tempo já. O texto encheu a imagem de sentido no instante mesmo em que a vi, e a imagem agora traz mais cor ao texto. Pra mim, eles agora andam juntos... E tanto mais...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tempo da delicadeza



Ando leve. Eu já não conhecia há algum tempo a doçura de ser leve. Eu já acreditava que a gente só achava que a leveza podia existir. Eu tinha me acostumado a pedir sempre mais, a tentar estancar o sangue, a buscar fôlego em desespero. Eu tinha me acostumado a esse turbilhão. Eu tinha me acostumado a chorar só pra desafogar um pouco o peito. Eu tinha me acostumado tanto que, ao sentir roçar essa leveza, cheguei a pensar que fosse menos, que fosse falta. É não... é só assim mesmo.
Eu me lembro daquela moça pra quem alguém falava repetidamente que daria tudo pra não ver cansada, pra não ver calada, pra não ver chateada.... Ela parece longe e tão aqui, tudo ao mesmo tempo.
Será pecado ser leve e querer continuar sendo indefinidamente??? Será muito egoísta gostar desse silêncio que não faz questão nenhuma de se gritar? Será que isso é a loucura e antes eu era lúcida? Ou será o
contrário? Se só agora eu voltei a dormir e sonhar de noite, e acordar curiosa tentando lembrar do sonho, será estranho? Se eu já não me afogo...
Claro que vez ou outra vem um certo medo, uma sensação de que tal calma não vai durar, mas... será errado se eu disser que eu não me importo? Só por enquanto, só por hoje, será errado se eu não me importar?


Imagem: Fugue, de Andrzej Malinowski

terça-feira, 10 de maio de 2011

45 minutos

(Eu tenho uma amiga que sempre diz que acredita que existem pessoas iguais umas às outras, mas que essas pessoas iguais habitam universos paralelos que não podem nunca se encontrar. Se algum dia duas delas se encontrarem... sei lá... acho que tem um colapso mundial. Não estou muito certa do que acontece. Mas lembrei disso agora)
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Será essa a vida? A derradeira, única, definitiva?
Feche os olhos. Devagar você vai sentir a máquina deixar o chão. E por mais que force os pés no piso, você não está em terra firme: você está voltando para casa. E esta é a vida. A sua. Devagar, conte... 10, 9, 8... e se o relógio girasse ao contrário? E o sentido não fosse horário.
Você está num quarto de hospital sem conseguir abrir os olhos. Ouve várias pessoas indiferentes conversando ao redor. Você é a paciente do 206. Você sabe que está desacordada, mas percebe todos os sentidos (aqui, eles não são horários). E você está confusa, não estava ainda agora num avião voltando para casa? Ainda sem abrir os olhos, você sabe que a enfermeira que lhe prepara a medicação é incrivelmente parecida com você. Imagina que ela logo vai deixar o plantão, soltar os cabelos e se preparar para uma noitada com os amigos. Você queria abrir os olhos, tirar esse tubo da seca boca e dizer: “Ei, estou aqui, estou viva, estou consciente, não me deixem ainda, me leve com vocês...” Mas eles já saem. Continue contando... 7, 6, 5...
Acabou de mergulhar na piscina azul. Nesse momento, em volta, as pessoas estão conversando alto sobre tudo e coisa nenhuma. Bem agora você só sente a água em volta de todo seu corpo que, só assim, começa a parecer sólido, uma forma com contornos mais ou menos definidos. Antes se sentia fluida como se não pudesse caber. Você adora sentir a água entre os dedos, separando os fios dos cabelos. Mergulha um pouco mais fundo e pensa em abrir os olhos e soltar a respiração devagar... aí você conta... 4, 3...
E continua dançando. Tem tanta gente em volta e as luzes piscam tanto que você não consegue ver bem o rosto de ninguém. É tudo um borrão tão mal definido, que não faz diferença, na verdade você nem tem certeza se os olhos estão abertos ou fechados. As pessoas esbarram em você o tempo todo e, mesmo assim, você tem a impressão de que não há ninguém por perto e de que é a única ali, deixando seu corpo ir como quiser na batida da música, tão alta que provavelmente te fará acordar meio surda pela manhã. Mas você nem pensa nisso. A boca seca, você precisa de outra bebida, isso sim. Mas, antes, por um instante, tira os pés do chão outra vez, sempre no ritmo da dança, e conta... 2, 1...
Abre os olhos devagar. Os pés ainda estão no alto, mas a música parou. Tem um rosto conhecido ao seu lado, um copo de água na mão, a pressão do avião deixou seu ouvido quase surdo, mas você ainda consegue ouvir a aeromoça dizendo num inglês horrível que já vão pousar. Você está voltando para casa. E essa é a vida. A de verdade. A máquina toca de novo o chão. Seus olhos estão abertos. Você pensa que afinal é sempre bom chegar. Você sabe: essa é a vida. A sua. Será?

terça-feira, 5 de abril de 2011

As minhas meninas

(Eu sei Maria, que roubo o título do seu texto. Mas o uso é diverso. Eu constantemente surrupio palavras quando me despertam sentidos.)
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“Nada é muito terrível...”
As minhas meninas são outras. Aliás, é exatamente isso: as minhas meninas são outras, sempre outras, nunca nós, nunca aqui, tão distantes estão daquilo que podemos imaginar como suportável numa vida, ainda que longa. As minhas meninas são jovens, Maria, e dá pra ver tanta juventude saltando no brilho dos olhos delas. As minhas meninas às vezes riem solto e cheias de verdade, quase não parecem mais tão outras. As minhas meninas às vezes se distraem e choram, pedem colo, pedem desculpa, e se traem... se deixam descobrir de uma fragilidade inquietante, porque nós só esperamos – ou só suportamos – ver nelas dureza, um olhar raso, um riso banal.
A gente ouve falar nas meninas, mas dificilmente ouvimos as meninas falarem. Já parou para ouvir uma das minhas meninas falar? Ela não te conta das dores, ela te fala de sonhos, de cores, de belezas, as mesmas que você falava quando menina. Quase sempre é isso. E aí também minhas meninas não são tão outras. E eu rio quase com doçura ouvindo suas histórias.
Elas estão tão perto, Maria. As minhas meninas moram logo ali, só que do outro lado da ponte, onde “o mundo é diferente” como alguém já tentou alertar. É estranho, aqui tudo é perto e o outro lado parece conhecido, mas a gente se espanta quando olha só um pouquinho mais de perto.
Hoje uma das minhas meninas chegou com o olho esquerdo inchado, e quando eu a vi ela estava rindo e me perguntou se eu tinha guardado o desenho que ela começou na semana anterior. Guardei sim, claro. Ela quer terminar depois. Fica ouvindo música e batendo papo com outras pessoas, conta tudo como se fosse tão leve. O olho? Ah sim, a minha menina tem quinze anos e há uns cinco dias atrás apanhou de um policial na rua. Eu juro, quando ela conta nem parece tão pesado. Quando elas contam das outras meninas que também já apanharam tantas e tantas vezes, do policial, do namorado, do pai, da mãe, do padrasto... quando elas contam de como já foram de tantas formas violentadas, seja um estupro por um parente ou alguma senhorinha que se dá ao direito de chamá-la de vagabunda (sim, isso também é uma violência, senhorinha!), não parece, naquele instante, que na minha cabeça e no meu corpo de menina de quinze anos aquilo seria tão devastador. Quando uma menina conta que foi estuprada por três caras aos doze anos, ou molestada pelo pai aos quatro, ou espancada pela mãe desde sempre, etc, etc, etc... não parece tão incrível que a vida possa seguir, que aquelas risadas consigam sair tão verdadeiras, tão cheias de força, que o peito se encha de ar ainda, que ainda brilhem os olhos. “O pulso ainda pulsa e o corpo ainda é pouco”.
Hoje uma das minhas meninas me deu vontade de chorar... eu que sou tão dura pra isso... e só agora, já em casa, longe outra vez, eu consigo assimilar. Vontade de chorar de raiva, de dor, de compaixão, por me sentir tão pequena. Hoje essa menina me deu vontade de largar tudo, parar o mundo e descer, ao mesmo tempo em que quis gritar pra todo mundo ouvir que as minhas meninas existem, e de cuspir na cara do policial e da senhorinha.
Mas nada disso vai acontecer. Amanhã tem outra menina, e depois outra. E elas são tantas, e a gente sabe tão pouco, e o tempo vai tão rápido. As minhas meninas seguem, e você bem sabe, elas nem são minhas, é só essa vontade que me deu hoje de sair colocando curativo em todas as feridas delas e de poder dizer com voz calma e segura: já passou, vai sarar.
“Nada é muito terrível. Só viver, não é?”

quinta-feira, 31 de março de 2011

Corra Lola



Corra Lola, corra. Vê se alcança aquela pontinha do céu que ontem você viu. Vê se consegue provar ainda aquele gostinho do paraíso. Eu juro Lola, tastes like heaven. E vicia. Deixa a boca cheia de um gosto doce que eu não sei bem dizer com o que parece.  (Sabe quando você prova só um pedacinho da melhor sobremesa? Fica aquela vontade incontrolável de mais um pouco. Sabe aquele beijo que, depois de muito ensaio, só vem no fim do dia?)
Um gosto que parece um pouco com o tempo, com ontem, com anos atrás, com logo mais, mês que vem, eu acho. Gosto que me lembra vento, que passa de leve pelo rosto antes de chegar à boca. Gosto que parece pele tatuada cheia de frases pelo corpo. Parece sangue, Lola. Parece música, alto e vibrante. É gosto de uma língua nova, que eu ainda não conheço e fico ouvindo extasiada. Tem gosto de muitas folhas espalhadas pelo chão. De mãos que nervosas cortam retalhos que não foram ou ágeis desenham os contornos de um corpo. Tem gosto de nuvem ou de algodão doce (que em minha opinião desde criança, sãos gostos iguais). Gosto de terra úmida tão pisada e repisada.
Não fica aí parada olhando para o teto. Eu juro, Lola, tem gosto de vida. Não fica aí parada olhando pela janela, não fica aí parada só pensando em encostar-se ao ombro dela. Não fica parada olhando curiosa e descrente a cara de quem já provou. Não faz esse jeito blasé de quem não viu é nada. Estica um pouco mais a língua. Experimenta dobrar-se um pouco mais. Você não é feita só de sorte e acasos Lola, mas também de ousadia, de não saber, de arremessos e saltos improváveis, de pedaços e de inteiros.
Vem Lola, me dá a mão e tenta ver um pouquinho desse sonho, que em algum lugar dentro de mim eu guardei tão escondido que não consigo achar. Procura Lola, mas se encontrar não me conta onde está, porque a graça também é procurar e ficar tonta de alegria ao encontrar outra vez.

domingo, 20 de março de 2011

"O mais profundo é a pele"



Sou tão colorida e caleidoscópica quanto cinza e opaca. Mantenho os pés bem firmes no chão enquanto quanto flutuo por aí. Tenho tantas lágrimas presas quanto risos soltos, ou o contrário, quem sabe: tantos risos abafados quanto lágrimas espalhadas por aí. Tantas estórias quanto silêncios afogados no travesseiro. Sou tanta entrega quanto desconfiança. Sou dura como uma folha de papel, e me deixo escrever e rabiscar na esperança de que tantas linhas acabem por encontrar um rumo. Eu resisto a avalanches, mas soçobro com uma só gota.
Edifico mundos, mas sou como areia. E mesmo para mim, é muito difícil saber quando e onde estou. Eu me perco constantemente.
Eu passeio entre extremos, amando as intensidades, mas morrendo de medo de ser carregada num turbilhão. Assim, sou pura mansidão, mas meu equilíbrio só se mantém por uma quase lunática volúpia. Amo com todas as garras escondidas em meus cabelos. E odeio apenas no ontem, nunca no presente.
Sou raivosa, apaixonada, chorona, fria, calma, determinada e ponderada. Entendo pouquíssimas coisas. Até mesmo, apesar do que digo, eu não entendo os opostos, mas não acho que se atraiam. Acredito que as aparências não enganam, nós é que as vemos da forma errada. Tudo que precisa ser visto, dito e mostrado, está ali, o tempo todo.
Peço perdão, mas nunca me arrependo. Tenho tanto medo de me ver exposta, que saio me gritando por aí, e mostro tudo aquilo que queria esconder. Eu odeio despedidas e dificilmente aceito derrotas. Mas sei que é o fim, e sem mais o que dizer, retiro-me do recinto.

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Imagem: Vik Muniz