domingo, 12 de fevereiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Primeiro eu quis voltar a um tempo no qual não havia preocupação e nem saudade. Devagar fui percebendo que tal tempo nunca existiu. Saudade, quando não é de algo que já foi, a gente inventa um porvir pra já começar a sentir o vazio que ele deixa.

Então eu quis negar um pouco do que eu não sei. Quis fingir só um pouquinho que acreditava no possível. Tem dias em que acreditar em qualquer coisa soa tão difícil. A gente sente vontade de só deixar passar, mas não porque acredita que assim vai ser melhor, mas só porque sim.

Depois eu quis dizer que tanto faz. O sim ou não, lá ou cá, mais alto ou mais baixo. Não ia mesmo fazer diferença. O sentido ia permanecer estático de onde quer que eu olhe. Ou não ia?

Logo, eu quis fazer uma coisa bem bonita. Daquelas que a gente quase esquece tudo o que havia antes, só pra poder contemplá-la por um segundo da forma como ela deve ser contemplada, como se não houvesse antes mesmo. Mas eu me perdi dando voltas e, com tantos fios soltos nas mãos, acabei foi fazendo coisa nenhuma.

Daí em quis apagar toda a memória que tenta fazer algum sentido. E acreditar que um tombo não dói, mas, se doer, antes de casar sara. E que se fizer careta e bater um vento, a careta fica pra sempre. E que não é bom deixar o chinelo virado ao contrário. E que isso é tudo.

Cansada, eu não quis mais nada. E em vez de isso me deixar mais feliz, já que tudo que eu queria não era, acabei foi ficando cinza.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Agora eu queria uma caixinha de lápis de cor. Alguém?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pour en finir avec le jugement de dieu

A QUESTÃO QUE SE COLOCA...
O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome. Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
   NÃO
à negação;
e chego a esse ponto quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca


*Trecho da transmissão radiofônica Para acabar com o julgamento de Deus, Antonin Artaud

sábado, 15 de outubro de 2011

O Buraco do espelho

Letra de Arnaldo Antunes



o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora




domingo, 28 de agosto de 2011



"Dá-me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é a linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio".

----------

Engraçado... sempre escutei o clichê de que quem lê viaja. Eu não sabia que quem viaja volta um pouco pra casa. É como se cada pedacinho do que se vê fosse procurando um lugar familiar pra ocupar na sua memória. A gente pode ficar até meio confuso, sem saber ao certo se está mesmo só conhecendo um monte de coisas novas, chega a parecer que se volta em várias páginas e se continua a escrever, com sentidos novos, é certo. É um pouco como se a gente tivesse encontrado mais um pedacinho da história, um que a gente nem sabia que faltava...
A foto é do Musée Rodin, que conheci agora em agosto. E o texto é de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, que li há algum tempo já. O texto encheu a imagem de sentido no instante mesmo em que a vi, e a imagem agora traz mais cor ao texto. Pra mim, eles agora andam juntos... E tanto mais...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tempo da delicadeza



Ando leve. Eu já não conhecia há algum tempo a doçura de ser leve. Eu já acreditava que a gente só achava que a leveza podia existir. Eu tinha me acostumado a pedir sempre mais, a tentar estancar o sangue, a buscar fôlego em desespero. Eu tinha me acostumado a esse turbilhão. Eu tinha me acostumado a chorar só pra desafogar um pouco o peito. Eu tinha me acostumado tanto que, ao sentir roçar essa leveza, cheguei a pensar que fosse menos, que fosse falta. É não... é só assim mesmo.
Eu me lembro daquela moça pra quem alguém falava repetidamente que daria tudo pra não ver cansada, pra não ver calada, pra não ver chateada.... Ela parece longe e tão aqui, tudo ao mesmo tempo.
Será pecado ser leve e querer continuar sendo indefinidamente??? Será muito egoísta gostar desse silêncio que não faz questão nenhuma de se gritar? Será que isso é a loucura e antes eu era lúcida? Ou será o
contrário? Se só agora eu voltei a dormir e sonhar de noite, e acordar curiosa tentando lembrar do sonho, será estranho? Se eu já não me afogo...
Claro que vez ou outra vem um certo medo, uma sensação de que tal calma não vai durar, mas... será errado se eu disser que eu não me importo? Só por enquanto, só por hoje, será errado se eu não me importar?


Imagem: Fugue, de Andrzej Malinowski

terça-feira, 10 de maio de 2011

45 minutos

(Eu tenho uma amiga que sempre diz que acredita que existem pessoas iguais umas às outras, mas que essas pessoas iguais habitam universos paralelos que não podem nunca se encontrar. Se algum dia duas delas se encontrarem... sei lá... acho que tem um colapso mundial. Não estou muito certa do que acontece. Mas lembrei disso agora)
---
Será essa a vida? A derradeira, única, definitiva?
Feche os olhos. Devagar você vai sentir a máquina deixar o chão. E por mais que force os pés no piso, você não está em terra firme: você está voltando para casa. E esta é a vida. A sua. Devagar, conte... 10, 9, 8... e se o relógio girasse ao contrário? E o sentido não fosse horário.
Você está num quarto de hospital sem conseguir abrir os olhos. Ouve várias pessoas indiferentes conversando ao redor. Você é a paciente do 206. Você sabe que está desacordada, mas percebe todos os sentidos (aqui, eles não são horários). E você está confusa, não estava ainda agora num avião voltando para casa? Ainda sem abrir os olhos, você sabe que a enfermeira que lhe prepara a medicação é incrivelmente parecida com você. Imagina que ela logo vai deixar o plantão, soltar os cabelos e se preparar para uma noitada com os amigos. Você queria abrir os olhos, tirar esse tubo da seca boca e dizer: “Ei, estou aqui, estou viva, estou consciente, não me deixem ainda, me leve com vocês...” Mas eles já saem. Continue contando... 7, 6, 5...
Acabou de mergulhar na piscina azul. Nesse momento, em volta, as pessoas estão conversando alto sobre tudo e coisa nenhuma. Bem agora você só sente a água em volta de todo seu corpo que, só assim, começa a parecer sólido, uma forma com contornos mais ou menos definidos. Antes se sentia fluida como se não pudesse caber. Você adora sentir a água entre os dedos, separando os fios dos cabelos. Mergulha um pouco mais fundo e pensa em abrir os olhos e soltar a respiração devagar... aí você conta... 4, 3...
E continua dançando. Tem tanta gente em volta e as luzes piscam tanto que você não consegue ver bem o rosto de ninguém. É tudo um borrão tão mal definido, que não faz diferença, na verdade você nem tem certeza se os olhos estão abertos ou fechados. As pessoas esbarram em você o tempo todo e, mesmo assim, você tem a impressão de que não há ninguém por perto e de que é a única ali, deixando seu corpo ir como quiser na batida da música, tão alta que provavelmente te fará acordar meio surda pela manhã. Mas você nem pensa nisso. A boca seca, você precisa de outra bebida, isso sim. Mas, antes, por um instante, tira os pés do chão outra vez, sempre no ritmo da dança, e conta... 2, 1...
Abre os olhos devagar. Os pés ainda estão no alto, mas a música parou. Tem um rosto conhecido ao seu lado, um copo de água na mão, a pressão do avião deixou seu ouvido quase surdo, mas você ainda consegue ouvir a aeromoça dizendo num inglês horrível que já vão pousar. Você está voltando para casa. E essa é a vida. A de verdade. A máquina toca de novo o chão. Seus olhos estão abertos. Você pensa que afinal é sempre bom chegar. Você sabe: essa é a vida. A sua. Será?