quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Começa assim, não acaba nunca.
Mas uma parte ficou terrivelmente cansada de brincar de escrever. A outra parte mudou-se para http://cartasdeana.wordpress.com/

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

André,

(Quando setembro acabar, será que leva meus morangos? Comprei caixas e mais caixas e agora não sei bem o que fazer.)

Fiquei me lembrando do tempo longe, quando era criança e gostava de tirar o relógio da parede da sala, quando ninguém mais via, e brincar de voltar os ponteiros. Daí observar como eles seguiam de novo e de novo, insistentes que eram em chegar ao ponto que tencionavam. Nunca conheci nada tão obstinado quanto um ponteiro de relógio, e era consternada, cheia de raiva e de admiração que constatava isso.

Não gostava de pensar no tempo, seu passeio pelos rosto, a marcas que deixa no corpo, a distância em que põe as lembranças, tudo ficando meio opaco. Furtava-me a esse embate, - achando tolamente que se tratava de um embate. A gente sabe – não sabe? – piora em setembros, quando, além das agonias do tempo, vem essa vontade de esmagar os morangos com as pontas das unhas só pra ter a fruta desmanchando. Lamber os dedos, estranhar o gosto e não saber ao certo o porquê do que acabara de fazer. Essa fome de salivas, resgates e esquecimentos.

Divido contigo o meu tempo não para te pedir substância, como antes, mas porque te vi vestido de cinza-tédio e com isso senti aumentar a minha inquietação.  Há pouco, venho tentando fazer as pazes com o tempo, resolver as birras de criança e, quem sabe então, aceitar melhor o risco dos saltos. Acho que tem mais cor assim, queria te dizer.

André, encara meu segredo que é de um absurdo sem fim, antes que eu o guarde de novo dentro de uma árvore. Dessa vez sou eu que te dou a mão. Estica a língua e come o morango, que o tempo é doce, embora rude. Não há que se esperar outro convite para o chá ou que outro coelho perdido venha nos resgatar, o ponteiro vai seguir mesmo enquanto a gente fixar o olhar. Deixa gotejar cansado. Eu tenho aceitado que o tempo passeie por mim, deixa ser também.

Ana.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cartas de Ana


Aquele dia caía uma chuvinha bem fina. Salpicava o rosto só. Parecia que a gente transpirava, ainda mais com aquele calor abafado que fazia. A gente costumava achar que só aqui, só na nossa cidade miúda é que fazia um calor tanto assim antes de uma chuva. E a gente aceitava a chuva de bom grado. Bagunçava o cabelo, encharcava o sapato porque eu sempre pisava nas poças, mas a gente gostava. Achava que era o sopro necessário depois de todo o calor. Calor que só fazia aqui na nossa miudeza; certo. A gente costumava achar que muita coisa era só por aqui, que lá fora, na vastidão, as tristezas talvez fossem mais cinzas, os amores mais vermelhos, o calor mais amarelo ocre. Abafado, só aqui. A gente achava que a miudeza carecia de cor. (Claro que nesse achar se intercalavam os momentos da chuvinha fina, que deixava um sorriso envergado no lábio, como se segredo fosse). Aí a gente pensava que queria sair, queria desbravar, descobrir o grande pra ver se não sufocava, correr, ter mais pés, mais abraços, mais horas pra gastar de tanto gastar. Mas na chuvinha não. A gente ria tímido no começo, corria um pouco fingindo querer escapar da água. Aí eu pisava na poça, já disse. Você lembrava como eu sempre fazia isso e tentava argumentar que não era tão difícil assim evitar as poças. Mostrava como fazer. Eu falava algo sobre a atração dos meus pés pelas poças mais fundas, quase rindo, mas era grave. Daí eu fingia que entendia o que você explicava e concordava com os olhos apertados, mas sabia que ia continuar pisando onde meus pés quisessem e, afinal, já não importava, encharcada que estava. Enquanto a gente falava, ia se esquecendo (só que de propósito) de fugir da chuva. Em algum momento, concluía que de nada adiantaria correr, e andar na chuva se tornava um passeio leve, sempre já com cara de ontem, sem o peso do presente ou algum cheiro de futuro assombrando. Tornava-se um passeio vazio de quereres, exceto talvez os quereres trazidos pela água da chuva remolhando a boca. Era um passeio assim, de miudezas, sabe?
Por hoje é o que me vem. Por hoje, te desejo um pouco de ontem. Uma chuva fina (e que venha, por deus, que está tão abafado nessa nossa miudeza, não?).
Beijo meu.
Ana.

domingo, 4 de novembro de 2012

Tudo turbulindo


Não sei se faço certo. Os meus pés precisam de chão pra não ir turbilhonando meu mundo, girando tudo rápido demais, ficando na ponta levianamente, achando que são de correr, de dançar, de ir mais e mais longe. Eles vão e voltam do chão, vão brincando de abismo e linha reta pelo caminho.

Eu bem gostava da ideia de ser mulher de firmeza, sabe? Dessas que trazem terra atrás dos olhos, sangue por baixo das unhas. Cheiro de certeza. Dessas que falam miúdo, que pisam certo, que sabem o caminho, que decepam melancolias com peixeira afiada. Eu penso assim. Mas a vida quis me dar destino outro. Me jogou do muito frio pro muito quente, e eu fiquei sem saber de que extremo gosto mais. Encheu meus olhos de tamanho pra que eu pudesse enxergar os pequenos e os cantos. E havia sempre palavras, palavras e mais palavras; cantadas, faladas, escritas, tatuadas, boicotando as horas que não têm fim.  Fiquei cheia de opostos, cheia de porvires de ontem, de excessos, de escapes, de farpas, de suavidades e de indelicadezas.

Eu volto o disco na vitrola e até gosto do arranhado que faz na superfície. Vou. Volto. Arrasto mais um pouco. O que eu quero é ver a agulha se entortar.

Eu encaro o relógio desde que me sei e acho que é porque as horas são matérias minhas, as horas passeiam em mim também.

Eu corro o dedo desenhando e redesenhando o corpo dele porque aprendi que caminho também é fim, e assim penso que encontrei um jeito mais suave de seguir e caminhar.

Assim, enfim, eu vou. Com ele. Sem ele. Que na verdade é um pouco mim, um pouco mais que outro, um pouco menos que nada, um pouco do tanto que eu não sei onde escondo e nem por que.

Salto do trem antes que o destino final aconteça, só porque gosto do movimento do saltar e não posso evitar esse pulo antecipado, esse logo mais que insiste em atropelar meus agoras. Ou porque não quero mesmo chegar.

Ainda, eu não largo sua mão, porque tenho medo do vazio que dá entre os dedos. Escolho palavras repetidas e inventadas. Canto um instante que não passou.

Vejo que vou endurecendo, mas não quero ceder a esse estúpido amanhã que teima em vir cada vez mais bruto. Fico tecendo fugas. Eu vou secar o seu pranto, que é pra ver se sobra um pouquinho pra mim. Pra ver se assim eu me agarro ao que é desmanchar e desfazer.

Começa assim. Não acaba nunca. Impede a morte, mas quase sempre engasga.

Dá-me a tua mão, aceita o inexpressivo, abre os teus olhos para o segredo que te conto. Adivinha as horas. Trata para que tudo se ajeite no fim. Confunde as cores do pierrodellafrancesca. Entende que isso que escrevo não faz sentido algum quando fora dessas linhas entre.

Não há palavra que cale. Não há lugar. Não há orquestra.

Eu me afogo, eu adoro, e vou me danar nessa incompletude que resolvi chamar destino.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Era ela.


(Aposto que era ela. A moça que espreitava da janela.)

Aposto que é lunar. Que tem quatro fases, mas que a gente só sabe disso quando apura o olhar. E quem não olha bem, não faz ideia e, assim, sem nem desconfiar, perde o melhor da festa. Aposto que, de tão distraída, ela é a mais atenta; e sabe dizer sem nem piscar quem é quem e como tudo se encontra ao redor. Mas não diz por que tem medo de se mostrar. Aposto que entende das cores, e conhece todas as nuances, mesmo quando estão todas misturadas.

Aposto que ela é a moça da palavra, da voz, da música invadindo a casa. Aposto que ela às vezes esconde o jogo e finge ser só mulher. E que quando você pensa nela, pensa logo em vida turbilhonando, pensa em movimento, em força e em danação também, porque ela é um e outro extremo.

Aposto que ela é de Leão e o ascendente eu não sei, por que entendo pouco mesmo de zodíaco. Aposto que gosta de tudo e de coisa nenhuma.  E que tem fama de debochada, se ri de tudo e de todos, mas tem um cadinho de medo de chorar. Aposto que se guarda e gosta de dizer que é moça de respeito e cuidado, mas sonha com abismos, velocidades e décimo andar. Aposto que ela quer a queda livre.

Aposto que ela chora e que quando você pensa que acabou, ela chora um pouco mais. E antes que você se angustie com tanto azul, eu digo que ela o faz porque é de mar, e assim ela transborda. Nem se dá conta, nem sabe ao certo dizer, mas transborda. E como mar, ela esconde um mundo sob a superfície que tanto pode ser calma, quanto bravia. Se faz de absoluta, mas vem cheia de caprichos. Se recolhe e se espalha. Te entrega a vida, mas leva um pedacinho seu que você esquecia ao lado, indiferente.

Aposto que as madeixas são longas, e que ela ri com o corpo todo, até com os cílios postiços que traz colados aos olhos. E que, quando ri, olha de soslaio para os lados, enquanto os lados todos, indisfarçadamente, olham pra ela. Aposto que ela deslumbra quem está perto e, flagrando desconcertados o deslumbre, alguns o fantasiam de reprovação; mas é puro deslumbre, é sim.

Aposto que ela dança, que mergulha a mão no fundo do chão à procura de substância, que traz o andar carregado de promessas. Que ela quer ser vista, mas mais que isso, ela quer ser imaginada. Aposto que procura remédios ou remendos para a alma; não só a dela, mas de outros também. Aposto que agora não é o bastante e que mesmo o futuro nunca vai ser, porque ela quer mais, e sempre mais, e mais um pouco ainda. E que ela me deixa sem fôlego, e te deixa sem fôlego, e deixa a senhorinha sentada ao canto sem fôlego, com tanto ser e querer.

Aposto que ela espreita agora.

domingo, 8 de julho de 2012

Diadorim é minha neblina



"Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me, a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. Melhor alembro."
...
"O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor..." Como era que eu podia dizer aquilo?"
...
"E como é que o amor desponta?"
...
"Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe."
...
"E eu - como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Diadorim tomou conta de mim."
...
"E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei - daí então acreditei."
...
"Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim que não era de verdade. Não era?"
...
"Diadorim deixou de ser nome. Virou sentimento meu."
...
"Aquilo me transformava. Me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava."
...
"Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço e fatal, carecendo de querer, e é só um facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."
...
"Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim."
...
"No fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijas, as muitas demais vezes, sempre."
...
"Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros."
...
"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
...
"Amor é a gente querendo achar o que é da gente."
...

Trechos de Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa (recitados por Maria Bethânia em "Bethânia e as palavras")



domingo, 27 de maio de 2012

Remoto controle



Eu ando pelo mundo prestando presto atenção em cores que eu não sei o nome.

Daí paraliso e estremeço quando um vermelho súbito toma de rompante o meu dia, mancha minha semana. Espirra na cara fazendo sujeira, gritando a ofensa que só um vermelho tão inesperado, mas tão anunciado, poderia trazer. Vou limpando com calma a bagunça feita pelo vermelho, aparando as arestas de uma dor que não é minha, nem sua.

Quem é ela? Quem é ela?
Ela é o vermelho na calçada. E eu vejo tudo enquadrado.

Vou pensando devagar que o borrão vermelho vai apagar, dando lugar aos poucos a um breve azul, e logo existirão cores outras. Daí, pum, um estampido, outro vermelho, mais uma mancha. Esse mais contido. Esse logo fica roxo e cinza. E a gente fica querendo ver um pouco mais de cores outra vez.

Esqueço.
Lembro.
Esqueço.
Lembro outra vez.

Considere a real dificuldade que tenho em lidar com a linearidade do tempo. Considere que há durezas que ninguém deveria aprender. Deixa eu te dizer: meu amor, eu acordei. E havia uma multidão ao lado, cada um olhando pra um lugar diferente do outro, cada um parecendo mais perdido, outros sem sequer perceber que estavam perdidos. Considere a minha vontade (que você já flagrou antes) de levantar sorrateira e sumir da cena. Considere a minha também real dificuldade em expor fragilidades. Entenda que há dias que parecem anos embotados de solidão.

As noites têm sido cheias demais, e cada vez que acordo parece que mais um ano se passou. Tome posse disso - eu te permito essa posse por hoje – e me deixe dormir até que eu encontre sentidos outros para o que, na verdade, não faz sentido algum. Aceito ajuda pra tecer um tapete novo que se finja chão para os pés. Essa noite, o que eu queria era te dizer do menino, mas não consigo. Talvez porque ele fosse tão duro, tão opaco, tão ele mesmo, tão cheio de histórias que eu não conhecia. Eu queria dizer que ele tinha cor, mas eu não sei. Queria dizer que ele tinha voz, mas eu não sei. Queria dizer que ele tinha vida, mas ela acaba e nem isso eu sei ainda.

Eu percebo que está tudo embolado por aqui, mas considere tudo, os dias que seguem, e, por favor, entenda que essa noite eu só preciso dormir sem sonhos. Também eu não gosto do que se lê aqui, mas escrevo só pra ver se cala.

Você sabia que a história acabava assim, não sabia? Só não queria dizer. Eu sabia também. Mas, pra não sair da rotina, eu preferia não saber.



terça-feira, 24 de abril de 2012

E o que é que a vida vai fazer de mim?


(La Toilette - Henri de Toulouse-Lautrec)


Diz que eu preciso ser feliz, que esse é meu dever, que me condena à felicidade, diz que felicidade é o que você me deseja sempre, sempre, sempre. Que pela sua lei, eu era obrigada a ser feliz. Repete: que seja doce. Mas fugiu no mundo sem me avisar, né?

Eu costumava me rir toda da nossa quimera sem prumo. Andava nua pelo meu país, achava uma graça ser a noiva do cowboy, pouco me dava se haviam outras três. Mas essa palavra – felicidade – é um peso, sabe? A gente anda melhor quando anda distraído. É só parar pra pensar e pronto! Ela já não existe. Ela é sempre o quase.

Não fuja não... eu só quero dizer, mais nada. Não é que agora a gente tenha medo, não é isso... mas é que felicidade é uma irrealidade complexa. Tarefa árdua para quem se imaginava num destino delicado. Tem que trincar os dentes, abrir os punhos quando eles quiserem cerrar. Depois do tempo da maldade (sim, a gente passou por ele) a felicidade chegaria no tempo da delicadeza? Nem sei. Penso que felicidade só pode ser plena de si, se aceitar trazer também as durezas.

Meu bem, da próxima vez me obrigue a algo mais simples, sim? Deseje-me sólida ou fluida, quem sabe pedra, talvez uma guerra, um espinho, uma asa. Até um cavalo que só fale inglês. Estar obrigada à felicidade tem sido impiedoso, torna fatal que o faz de conta termine sempre assim.

domingo, 15 de abril de 2012

Cartas de Ana (carta nº 2)

Aonde vai Valentim? Meu menino das horas, correndo entre ruas vulgares, onde pretende chegar? Valente, como só se faz quando tocado no abismo de si. Tem a coragem de andar até os extremos, mesmo sem ver o chão.
Eu me alimento e me sufoco com a mesma matéria: sua coragem de arrancar uma a uma as pedras que vão formando os seixos do rio; arriscando o expandir mesmo sabendo que há o risco do secar.
Se eu te falo agora, é por querer te contar... Ouça Valentim, eu não sou oca. Eu sou só dura; às vezes opaca também. E se escarneço de mim mesma é para não ter que enfrentar a lida de quem olha de perto um precipício, como se fosse um presságio. Eu vejo você pular assim, quase sorrindo. Por um instante, penso em estender as mãos e te segurar; dizer perto do ouvido: “tem cuidado”. Mas se descuido e penso um pouco mais, logo meu impulso se torna o contrário e desejo de te empurrar ao fundo, para que não titubeie e para que, ao te levar até à beira, eu deixe o meu rosto a mostra e o fundo possa me encarar também. Pensar um pouco mais sempre foi uma armadilha para mim.
Valentim, seguiria contigo até o fim. Até que o nada se fizesse óbvio; cor de magenta. Mas somos sós, não somos? Escolhemos seguir. Em cólera. Acho que sim. Guardo essa amnésia que vez ou outra me assusta com seus lampejos de um ontem, lampejos que me fazem suspeitar da existência de outros possíveis, reticências infindas.
Valentim, meu menino inventado, eu vou me esquecendo até dos toques – que aos poucos vou chamando de arrepios – mas tentarei lembrar as cores. Já quase te esqueço e sei que é injusto pedir, mas, que seja pela generosidade de emprestar substância aos meus passos ou por pura distração, me guarde contigo, sim?
Se eu te falto agora... eu acho que já vou esquecendo meus porquês.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Vamos fazer um trato, sim? Você e eu, André. Ninguém mais precisa saber. Vamos combinar que a partir de hoje a gente acredita em absurdo. Fica decretado que, a partir de agora, 21:09, a gente acredita no incompossível. E que você me dará licença poética, vai relevar os meus tropeços, os meus soluços sem fim, a minha falta de tino, o meu andar torto, o bagunçado do meu cabelo. Eu farei pouco caso dos seus exageros, sua falta de senso, sua voz mais alta que a sala, sua difícil conclusão.

Mais que isso, André, eu te darei minha mão (se você promete que segura a minha com firmeza, mas sem prender demais). E acima de tudo, nós nos concederemos nossas horas, doces e amargas, mas sem tentar nunca, jamais, sufocar os tempos do outro.

Não me pergunte como, André, só tope esse acordo comigo. Eu prometo guardar os silêncios, aceitar os perdidos e comer o que sobrar. Não prometo conter os meus quereres, interromper a língua, nem desvairar suposições com você. Eu te prometo, você me promete, aceitar que a gente se devora, e que é assim mesmo que a gente adora. André, eu não te prometo pra sempre, eu não sou de pra-sempres, mas te entrego minhas horas infindas se você também vier.

E então? Faz esse pacto do absurdo comigo? Até que tudo vire poeira (ou poesia).

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Vem passeando teu suspiro pela minha nuca que eu te mostro onde termina minha vida, onde reside meu compasso, mas apenas se conheces minhas horas e com cuidado tratas o meu estar. Vim de um lugar que não é longe, mas já não se pode segurar. Vim de onde as coisas não se tocam, pois ao tocarem-se vão esmaecendo e fundindo-se numa só, se se tocam várias, então outras várias vão se formando... Vim de um lugar onde nada pertence, portanto; de onde nada é. De forma que desde cedo aprendi a me contorcer e a me desviar, sem sucumbir à sedução de corpos outros. De onde eu venho todos os corpos são intensamente sedutores.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Primeiro eu quis voltar a um tempo no qual não havia preocupação e nem saudade. Devagar fui percebendo que tal tempo nunca existiu. Saudade, quando não é de algo que já foi, a gente inventa um porvir pra já começar a sentir o vazio que ele deixa.

Então eu quis negar um pouco do que eu não sei. Quis fingir só um pouquinho que acreditava no possível. Tem dias em que acreditar em qualquer coisa soa tão difícil. A gente sente vontade de só deixar passar, mas não porque acredita que assim vai ser melhor, mas só porque sim.

Depois eu quis dizer que tanto faz. O sim ou não, lá ou cá, mais alto ou mais baixo. Não ia mesmo fazer diferença. O sentido ia permanecer estático de onde quer que eu olhe. Ou não ia?

Logo, eu quis fazer uma coisa bem bonita. Daquelas que a gente quase esquece tudo o que havia antes, só pra poder contemplá-la por um segundo da forma como ela deve ser contemplada, como se não houvesse antes mesmo. Mas eu me perdi dando voltas e, com tantos fios soltos nas mãos, acabei foi fazendo coisa nenhuma.

Daí em quis apagar toda a memória que tenta fazer algum sentido. E acreditar que um tombo não dói, mas, se doer, antes de casar sara. E que se fizer careta e bater um vento, a careta fica pra sempre. E que não é bom deixar o chinelo virado ao contrário. E que isso é tudo.

Cansada, eu não quis mais nada. E em vez de isso me deixar mais feliz, já que tudo que eu queria não era, acabei foi ficando cinza.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Agora eu queria uma caixinha de lápis de cor. Alguém?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pour en finir avec le jugement de dieu

A QUESTÃO QUE SE COLOCA...
O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome. Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
   NÃO
à negação;
e chego a esse ponto quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca


*Trecho da transmissão radiofônica Para acabar com o julgamento de Deus, Antonin Artaud

sábado, 15 de outubro de 2011

O Buraco do espelho

Letra de Arnaldo Antunes



o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora




domingo, 28 de agosto de 2011



"Dá-me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é a linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio".

----------

Engraçado... sempre escutei o clichê de que quem lê viaja. Eu não sabia que quem viaja volta um pouco pra casa. É como se cada pedacinho do que se vê fosse procurando um lugar familiar pra ocupar na sua memória. A gente pode ficar até meio confuso, sem saber ao certo se está mesmo só conhecendo um monte de coisas novas, chega a parecer que se volta em várias páginas e se continua a escrever, com sentidos novos, é certo. É um pouco como se a gente tivesse encontrado mais um pedacinho da história, um que a gente nem sabia que faltava...
A foto é do Musée Rodin, que conheci agora em agosto. E o texto é de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, que li há algum tempo já. O texto encheu a imagem de sentido no instante mesmo em que a vi, e a imagem agora traz mais cor ao texto. Pra mim, eles agora andam juntos... E tanto mais...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tempo da delicadeza



Ando leve. Eu já não conhecia há algum tempo a doçura de ser leve. Eu já acreditava que a gente só achava que a leveza podia existir. Eu tinha me acostumado a pedir sempre mais, a tentar estancar o sangue, a buscar fôlego em desespero. Eu tinha me acostumado a esse turbilhão. Eu tinha me acostumado a chorar só pra desafogar um pouco o peito. Eu tinha me acostumado tanto que, ao sentir roçar essa leveza, cheguei a pensar que fosse menos, que fosse falta. É não... é só assim mesmo.
Eu me lembro daquela moça pra quem alguém falava repetidamente que daria tudo pra não ver cansada, pra não ver calada, pra não ver chateada.... Ela parece longe e tão aqui, tudo ao mesmo tempo.
Será pecado ser leve e querer continuar sendo indefinidamente??? Será muito egoísta gostar desse silêncio que não faz questão nenhuma de se gritar? Será que isso é a loucura e antes eu era lúcida? Ou será o
contrário? Se só agora eu voltei a dormir e sonhar de noite, e acordar curiosa tentando lembrar do sonho, será estranho? Se eu já não me afogo...
Claro que vez ou outra vem um certo medo, uma sensação de que tal calma não vai durar, mas... será errado se eu disser que eu não me importo? Só por enquanto, só por hoje, será errado se eu não me importar?


Imagem: Fugue, de Andrzej Malinowski

terça-feira, 10 de maio de 2011

45 minutos

(Eu tenho uma amiga que sempre diz que acredita que existem pessoas iguais umas às outras, mas que essas pessoas iguais habitam universos paralelos que não podem nunca se encontrar. Se algum dia duas delas se encontrarem... sei lá... acho que tem um colapso mundial. Não estou muito certa do que acontece. Mas lembrei disso agora)
---
Será essa a vida? A derradeira, única, definitiva?
Feche os olhos. Devagar você vai sentir a máquina deixar o chão. E por mais que force os pés no piso, você não está em terra firme: você está voltando para casa. E esta é a vida. A sua. Devagar, conte... 10, 9, 8... e se o relógio girasse ao contrário? E o sentido não fosse horário.
Você está num quarto de hospital sem conseguir abrir os olhos. Ouve várias pessoas indiferentes conversando ao redor. Você é a paciente do 206. Você sabe que está desacordada, mas percebe todos os sentidos (aqui, eles não são horários). E você está confusa, não estava ainda agora num avião voltando para casa? Ainda sem abrir os olhos, você sabe que a enfermeira que lhe prepara a medicação é incrivelmente parecida com você. Imagina que ela logo vai deixar o plantão, soltar os cabelos e se preparar para uma noitada com os amigos. Você queria abrir os olhos, tirar esse tubo da seca boca e dizer: “Ei, estou aqui, estou viva, estou consciente, não me deixem ainda, me leve com vocês...” Mas eles já saem. Continue contando... 7, 6, 5...
Acabou de mergulhar na piscina azul. Nesse momento, em volta, as pessoas estão conversando alto sobre tudo e coisa nenhuma. Bem agora você só sente a água em volta de todo seu corpo que, só assim, começa a parecer sólido, uma forma com contornos mais ou menos definidos. Antes se sentia fluida como se não pudesse caber. Você adora sentir a água entre os dedos, separando os fios dos cabelos. Mergulha um pouco mais fundo e pensa em abrir os olhos e soltar a respiração devagar... aí você conta... 4, 3...
E continua dançando. Tem tanta gente em volta e as luzes piscam tanto que você não consegue ver bem o rosto de ninguém. É tudo um borrão tão mal definido, que não faz diferença, na verdade você nem tem certeza se os olhos estão abertos ou fechados. As pessoas esbarram em você o tempo todo e, mesmo assim, você tem a impressão de que não há ninguém por perto e de que é a única ali, deixando seu corpo ir como quiser na batida da música, tão alta que provavelmente te fará acordar meio surda pela manhã. Mas você nem pensa nisso. A boca seca, você precisa de outra bebida, isso sim. Mas, antes, por um instante, tira os pés do chão outra vez, sempre no ritmo da dança, e conta... 2, 1...
Abre os olhos devagar. Os pés ainda estão no alto, mas a música parou. Tem um rosto conhecido ao seu lado, um copo de água na mão, a pressão do avião deixou seu ouvido quase surdo, mas você ainda consegue ouvir a aeromoça dizendo num inglês horrível que já vão pousar. Você está voltando para casa. E essa é a vida. A de verdade. A máquina toca de novo o chão. Seus olhos estão abertos. Você pensa que afinal é sempre bom chegar. Você sabe: essa é a vida. A sua. Será?

terça-feira, 5 de abril de 2011

As minhas meninas

(Eu sei Maria, que roubo o título do seu texto. Mas o uso é diverso. Eu constantemente surrupio palavras quando me despertam sentidos.)
-----
“Nada é muito terrível...”
As minhas meninas são outras. Aliás, é exatamente isso: as minhas meninas são outras, sempre outras, nunca nós, nunca aqui, tão distantes estão daquilo que podemos imaginar como suportável numa vida, ainda que longa. As minhas meninas são jovens, Maria, e dá pra ver tanta juventude saltando no brilho dos olhos delas. As minhas meninas às vezes riem solto e cheias de verdade, quase não parecem mais tão outras. As minhas meninas às vezes se distraem e choram, pedem colo, pedem desculpa, e se traem... se deixam descobrir de uma fragilidade inquietante, porque nós só esperamos – ou só suportamos – ver nelas dureza, um olhar raso, um riso banal.
A gente ouve falar nas meninas, mas dificilmente ouvimos as meninas falarem. Já parou para ouvir uma das minhas meninas falar? Ela não te conta das dores, ela te fala de sonhos, de cores, de belezas, as mesmas que você falava quando menina. Quase sempre é isso. E aí também minhas meninas não são tão outras. E eu rio quase com doçura ouvindo suas histórias.
Elas estão tão perto, Maria. As minhas meninas moram logo ali, só que do outro lado da ponte, onde “o mundo é diferente” como alguém já tentou alertar. É estranho, aqui tudo é perto e o outro lado parece conhecido, mas a gente se espanta quando olha só um pouquinho mais de perto.
Hoje uma das minhas meninas chegou com o olho esquerdo inchado, e quando eu a vi ela estava rindo e me perguntou se eu tinha guardado o desenho que ela começou na semana anterior. Guardei sim, claro. Ela quer terminar depois. Fica ouvindo música e batendo papo com outras pessoas, conta tudo como se fosse tão leve. O olho? Ah sim, a minha menina tem quinze anos e há uns cinco dias atrás apanhou de um policial na rua. Eu juro, quando ela conta nem parece tão pesado. Quando elas contam das outras meninas que também já apanharam tantas e tantas vezes, do policial, do namorado, do pai, da mãe, do padrasto... quando elas contam de como já foram de tantas formas violentadas, seja um estupro por um parente ou alguma senhorinha que se dá ao direito de chamá-la de vagabunda (sim, isso também é uma violência, senhorinha!), não parece, naquele instante, que na minha cabeça e no meu corpo de menina de quinze anos aquilo seria tão devastador. Quando uma menina conta que foi estuprada por três caras aos doze anos, ou molestada pelo pai aos quatro, ou espancada pela mãe desde sempre, etc, etc, etc... não parece tão incrível que a vida possa seguir, que aquelas risadas consigam sair tão verdadeiras, tão cheias de força, que o peito se encha de ar ainda, que ainda brilhem os olhos. “O pulso ainda pulsa e o corpo ainda é pouco”.
Hoje uma das minhas meninas me deu vontade de chorar... eu que sou tão dura pra isso... e só agora, já em casa, longe outra vez, eu consigo assimilar. Vontade de chorar de raiva, de dor, de compaixão, por me sentir tão pequena. Hoje essa menina me deu vontade de largar tudo, parar o mundo e descer, ao mesmo tempo em que quis gritar pra todo mundo ouvir que as minhas meninas existem, e de cuspir na cara do policial e da senhorinha.
Mas nada disso vai acontecer. Amanhã tem outra menina, e depois outra. E elas são tantas, e a gente sabe tão pouco, e o tempo vai tão rápido. As minhas meninas seguem, e você bem sabe, elas nem são minhas, é só essa vontade que me deu hoje de sair colocando curativo em todas as feridas delas e de poder dizer com voz calma e segura: já passou, vai sarar.
“Nada é muito terrível. Só viver, não é?”

quinta-feira, 31 de março de 2011

Corra Lola



Corra Lola, corra. Vê se alcança aquela pontinha do céu que ontem você viu. Vê se consegue provar ainda aquele gostinho do paraíso. Eu juro Lola, tastes like heaven. E vicia. Deixa a boca cheia de um gosto doce que eu não sei bem dizer com o que parece.  (Sabe quando você prova só um pedacinho da melhor sobremesa? Fica aquela vontade incontrolável de mais um pouco. Sabe aquele beijo que, depois de muito ensaio, só vem no fim do dia?)
Um gosto que parece um pouco com o tempo, com ontem, com anos atrás, com logo mais, mês que vem, eu acho. Gosto que me lembra vento, que passa de leve pelo rosto antes de chegar à boca. Gosto que parece pele tatuada cheia de frases pelo corpo. Parece sangue, Lola. Parece música, alto e vibrante. É gosto de uma língua nova, que eu ainda não conheço e fico ouvindo extasiada. Tem gosto de muitas folhas espalhadas pelo chão. De mãos que nervosas cortam retalhos que não foram ou ágeis desenham os contornos de um corpo. Tem gosto de nuvem ou de algodão doce (que em minha opinião desde criança, sãos gostos iguais). Gosto de terra úmida tão pisada e repisada.
Não fica aí parada olhando para o teto. Eu juro, Lola, tem gosto de vida. Não fica aí parada olhando pela janela, não fica aí parada só pensando em encostar-se ao ombro dela. Não fica parada olhando curiosa e descrente a cara de quem já provou. Não faz esse jeito blasé de quem não viu é nada. Estica um pouco mais a língua. Experimenta dobrar-se um pouco mais. Você não é feita só de sorte e acasos Lola, mas também de ousadia, de não saber, de arremessos e saltos improváveis, de pedaços e de inteiros.
Vem Lola, me dá a mão e tenta ver um pouquinho desse sonho, que em algum lugar dentro de mim eu guardei tão escondido que não consigo achar. Procura Lola, mas se encontrar não me conta onde está, porque a graça também é procurar e ficar tonta de alegria ao encontrar outra vez.